Summary
Ana Paula Veloso Fernandes, estudante de Direito de 36 anos, é investigada pela Polícia Civil como serial killer responsável por envenenar 4 pessoas entre janeiro e maio de 2025 em Guarulhos e Duque de Caxias. As vítimas foram Marcelo Hari Fonseca (31/01/2025), Maria Aparecida Rodrigues (11/04/2025), Neil Corrêa da Silva (26/04/2025) e Hayder Mhazres (23/05/2025). Ana Paula usava chumbinho como veneno, aproximava-se das vítimas via apps de relacionamento, apropriava-se de suas identidades e bens após a morte. Junto com a irmã gêmea Roberta Cristina Veloso Fernandes, transformou assassinatos em serviço pago, usando código "TCC" (Trabalho de Conclusão de Curso) para se referir aos crimes e cobrando mínimo de R$ 4.000 por execução. Michelle Paiva da Silva, filha de Neil, pagou R$ 1.400 para que Ana Paula envenenasse o próprio pai com feijoada contaminada.
O odor fétido que emanava da casa 234 na Rua São Gabriel, bairro Vila Renata, em Guarulhos (Grande São Paulo), era o prenúncio de uma cena de horror. Em 31 de janeiro de 2025, a Polícia Militar encontrou o corpo de Marcelo Hari Fonseca, 50 anos, em avançado estado de decomposição. A pessoa que franqueou a entrada dos policiais e se apresentou como a descobridora do cadáver era Ana Paula Veloso Fernandes, uma mulher de 36 anos, recém-chegada do Rio de Janeiro, estudante de Direito na UNG (Universidade de Guarulhos). Mais tarde, ela seria apontada pela polícia como uma serial killer.
Mal sabiam os policiais que aquela mulher, aparentemente solícita e abalada pela descoberta macabra, não era apenas uma testemunha casual. Ela era, segundo as investigações posteriores, a mente por trás de uma série de mortes calculadas, a serial killer que deixaria um rastro de cadáveres e identidades roubadas por onde passasse. Marcelo não seria a única vítima. Sua morte foi o primeiro capítulo de um dos casos mais intrigantes e perturbadores do true crime no Brasil.
A investigação policial que se seguiu revela não apenas os crimes, mas a mente de uma serial killer que operava sob a fachada de vítima, manipulando o sistema legal, forjando identidades e apagando vidas com a frieza de quem executa uma tarefa rotineira.

Vítimas da serial killer de Guarulhos
Marcelo Hari Fonseca
Marcelo era um homem solitário, com pouco contato com a família. Essa vulnerabilidade o tornou a presa perfeita para a suspeita de ser uma serial killer. Quando seu corpo foi encontrado, o laudo necroscópico foi inconclusivo devido ao avançado estado de putrefação, impossibilitando a análise toxicológica que poderia ter revelado a verdadeira causa da morte. O que parecia ser apenas uma morte natural de um homem isolado logo se revelou muito mais sinistro.

Ana Paula não apenas “descobriu” o cadáver. Ela se apossou de seu lar. Trancou o imóvel com um cadeado e passou a residir ali como se fosse sua legítima proprietária, para a surpresa e horror dos herdeiros de Marcelo. Quando a família finalmente descobriu a ocupação irregular, Ana Paula não hesitou em ameaçá-los. Vizinhos a flagraram queimando os pertences da vítima, numa tentativa grotesca de apagar os vestígios de quem ele foi. A família precisou entrar com uma ação possessória para reaver o que era seu por direito.
O comportamento de Ana Paula após a morte de Marcelo já revelava um padrão que se repetiria: apropriação material, destruição de evidências e ausência total de remorso. Mas naquele momento, ninguém suspeitava que aquela ocupação irregular era apenas a ponta de um iceberg muito mais sombrio, o modus operandi de uma provável serial killer.
Maria Aparecida Rodrigues
Maria Aparecida, de 45 anos, mantinha uma relação romântica com Ana Paula. As duas se conheceram através de aplicativos de relacionamento e rapidamente desenvolveram um vínculo de confiança e intimidade. No dia 10 de abril de 2025, a vida de Maria foi selada por uma sequência de atos meticulosamente calculados.
Às 14h daquele dia, um chip de celular foi cadastrado em nome de Maria Aparecida Rodrigues na operadora TIM. Este detalhe, aparentemente trivial, se tornaria a peça-chave que desvendaria toda a trama. Horas depois, Maria e a investigada como serial killer Ana Paula passaram a tarde juntas em um passeio que incluiu fotos no Lago dos Patos e açaí. A última imagem de Maria com vida, postada em seu Instagram às 21h38, a mostra ao lado de Ana Paula com a legenda: “Quintooo. Com ela bora aproveitar essa noite linda”.
Às 21h, Maria enviou uma mensagem à filha, Thayná Rodrigues Felipe, informando que havia chegado em casa. Foi o último sinal de vida. Na manhã seguinte, Maria Aparecida foi encontrada morta em sua residência. O laudo necroscópico, assinado pela Dra. Andrezza Garcia Morales, apontou edema pulmonar, pulmões aumentados com áreas vinhosas e congestas, líquido hemático espumoso, petéquias e sufusões hemorrágicas no miocárdio compatíveis com evento isquêmico agudo. Não havia sinais de trauma ou morte violenta. A morte foi inicialmente registrada no Boletim de Ocorrência FI8396/2025 como decorrente de causas naturais.

Mas a revelação crucial viria da análise de telefonia. O chip cadastrado em nome de Maria horas antes de sua morte estava, na verdade, sendo utilizado no aparelho celular da suspeita de ser serial killer Ana Paula. Os códigos IMEI (3516833353561XX e 3516833353561YY) confirmaram que o mesmo dispositivo físico usado por Ana Paula em diversos boletins de ocorrência era aquele que operava com o chip em nome de Maria Aparecida. Era com ele que a assassina enviava ameaças a outras pessoas, forjando uma perseguição e usando a identidade da amiga recém-morta para se ocultar.
A filha de Maria, Thayná, relatou à polícia o comportamento estranho de Ana Paula após a morte. Ela compareceu à residência de forma inusitada, solicitou buscar roupas para doação e fez diversas ligações via WhatsApp demonstrando uma preocupação excessiva com o conteúdo do laudo do IML (Instituto Médico Legal). Thayná confirmou que sua mãe tinha boa saúde e não usava medicamentos controlados, reforçando as suspeitas de que a morte não foi natural.
Hayder Mhazres
O jovem tunisiano Hayder Mhazres, de apenas 21 anos, foi a terceira vítima conhecida da suspeita de ser serial killer, segundo a polícia. Ele havia chegado ao Brasil há pouco tempo e morava com o irmão, Hazem, a cunhada e a sobrinha no condomínio Family Residences, na Avenida Rangel Pestana, no bairro do Brás, em São Paulo. Hayder não falava português e dependia de amigos para se comunicar. Essa barreira linguística e cultural, somada ao fato de estar longe de sua terra natal, o tornava particularmente vulnerável.
Hayder mantinha um relacionamento com Ana Paula, que alegava estar grávida dele. Segundo testemunhas, o jovem vinha relatando perseguições por parte de Ana Paula e estava tentando se desvencilhar da suspeita de agir como serial killer. Em 23 de maio de 2025, Hayder passou mal na área comum do condomínio, foi ao banheiro e retornou clamando por ajuda do irmão. O funcionário da recepção, Diego, acionou o socorroe prestou os primeiros atendimentos até a chegada da equipe médica, mas Hayder não resistiu e morreu.

Ana Paula foi, novamente, a primeira a comunicar a morte à polícia. E, novamente, forneceu informações falsas. Ela declarou que o endereço era Avenida Rangel Pestana, nº 223, Apto 5019, quando o local correto era Avenida Rangel Pestana, 1014, uma clara tentativa de obstruir a investigação.
O testemunho de Ahmed Omrane, um cidadão tunisiano que atuava como intérprete para Hayder, foi devastador. Em 24 de maio, ao encontrar Ana Paula no local onde o corpo estava sendo velado, Ahmed declarou em árabe, na frente de testemunhas, ter certeza de que Ana Paula havia matado Hayder. Ele relatou que o irmão de Hayder, Hazem, negava veementemente que o jovem fosse usuário de drogas — versão que Ana Paula tentava disseminar — e que Hayder não havia tido relações sexuais com ela, apesar de Ana Paula alegar estar grávida.
Quando Ahmed questionou Ana Paula sobre a morte de Hayder, ela forneceu pelo menos três versões contraditórias: primeiro disse que comeram um lanche e retornaram ao condomínio; depois afirmou que Hayder fumou maconha e tomou um milk shake; por fim, alegou que ambos teriam consumido maconha e milk shake em uma praça.
Após a morte, Ana Paula criou um perfil no Facebook chamado “Mhazres Ana“, utilizando o sobrenome e uma foto com Hayder. Através deste perfil, iniciou conversas ofensivas com Ahmed e os familiares, acusando-os de serem traficantes, apresentando-se como advogada criminalista e ameaçando “indiciá-los” por tráfico. O corpo de Hayder foi repatriado à Tunísia, levando consigo a chance de uma análise toxicológica definitiva que poderia ter confirmado o envenenamento.
Neil Corrêa da Silva — Crime por encomenda
O padrão estabelecido nas três primeiras mortes — vítimas vulneráveis, envenenamento discreto, apropriação de bens — sofreu uma variação perturbadora no quarto homicídio atribuído a Ana Paula. Desta vez, o crime não foi motivado por ganho pessoal direto ou relacionamento frustrado. Foi um assassinato por encomenda, segundo a investigação, executado mediante pagamento, que revelaria uma dimensão ainda mais sombria da mente da suspeita: a transformação do homicídio em mercadoria.
Neil Corrêa da Silva, 65 anos, aposentado, morava em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, Rio de Janeiro. Em 26 de abril de 2025, pouco mais de um mês após a morte de Hayder Mhazres em São Paulo, Neil passou mal após comer uma feijoada em sua própria casa. Apenas duas pessoas estavam presentes no momento: sua filha, Michelle Paiva da Silva, 43 anos, motorista de ônibus, e uma amiga dela da faculdade de Direito — Ana Paula.
Neil não resistiu. A morte, inicialmente, parecia natural. Um idoso que passou mal após uma refeição. Nada que levantasse suspeitas imediatas. Mas o que a família não sabia é que aquela feijoada havia sido cuidadosamente preparada para matar. E que a própria filha de Neil havia pago para que isso acontecesse.
Michelle e Ana Paula se conheceram durante o curso de Direito em uma universidade privada na Zona Norte do Rio de Janeiro. Colegas de turma, as duas desenvolveram uma relação que, aos olhos de terceiros, parecia uma amizade comum entre estudantes que compartilhavam a rotina acadêmica. Mas por trás da fachada de normalidade, gestava-se um pacto sinistro.
Segundo as investigações, Michelle procurou Ana Paula com uma proposta: matar o próprio pai. As motivações exatas ainda são objeto de investigação, mas o que se sabe é que Michelle tinha acesso a informações sobre a rotina e os hábitos de Neil, facilitando o planejamento do crime. E Ana Paula, que já havia matado pelo menos três vezes, aceitou a encomenda.
O preço da vida de Neil Corrêa da Silva foi estabelecido em R$ 4.000,00. Mas Ana Paula, sempre calculista, descontou desse valor um empréstimo feita com Michelle. No final, a filha pagou R$ 1.400,00 para que o pai fosse assassinado.
TCC, o código da morte
A análise forense dos aparelhos celulares de Ana Paula e de sua irmã gêmea, Roberta Cristina Veloso Fernandes, segundo a polícia, revelou uma rede de comunicações que expõe o nível de premeditação e organização por trás dos crimes atribuídos a serial killer. As duas irmãs utilizavam um código para se referir aos homicídios: “TCC”. A sigla, que normalmente designa Trabalho de Conclusão de Curso no meio acadêmico, foi ressignificada pelas irmãs como eufemismo para assassinato.
As mensagens e áudios recuperados pela extração forense são devastadores. Revelam planejamento prévio, divisão de tarefas, discussões sobre pagamento e instruções detalhadas sobre como executar os crimes e apagar rastros. Em diversos trechos, Roberta orienta Ana Paula a “cobrar” por futuros “TCCs”, fixa R$ 4.000,00 como “valor mínimo” e recomenda o uso exclusivo de dinheiro em espécie para aquisição de “taxas/insumos” — uma referência clara ao veneno utilizado nos crimes.
Em um áudio enviado à irmã após a morte de Neil, Ana Paula admite ter dado comida “batida no feijão” ao idoso, mas diz que “não conseguiu fazer o TCC como planejado”. A frase sugere que algo no plano original não saiu conforme o esperado — talvez a dose do veneno, talvez a reação da vítima, talvez a presença de testemunhas. Mas o resultado final foi alcançado: Neil morreu.
O papel de Roberta
Durante a investigação do true crime, descobriu-se que Roberta Cristina Veloso Fernandes não estava fisicamente presente em Duque de Caxias no dia da morte de Neil — ela permaneceu em Guarulhos —, mas sua participação no crime foi fundamental. Segundo a polícia, “embora tenha permanecido em Guarulhos na ocasião da morte de Neil, ela instigou, auxiliou e recebeu pagamento pelo crime”.
As comunicações interceptadas revelam que Roberta atuava como uma espécie de mentora ou consultora dos homicídios da irmã serial killer. Ela orientava Ana Paula sobre como cobrar pelos serviços, como evitar rastros financeiros, como escolher as vítimas e como executar os crimes de forma a minimizar suspeitas. Em alguns trechos, Roberta demonstra conhecimento técnico sobre envenenamento e sobre como manipular cenas de crime para que pareçam mortes naturais.
A frieza emocional das irmãs é chocante. Após a confirmação da morte de Neil, as mensagens entre elas retomam temas banais — compras, compromissos, fofocas —, como se nada de extraordinário tivesse acontecido. A capacidade de compartimentalizar o horror, de separar o ato de matar da vida cotidiana, é uma característica marcante de psicopatas. E as irmãas Veloso Fernandes parecem compartilhar essa característica.
Além da vida de Neil, outro elemento desapareceu após sua morte: R$ 4.500,00 em dinheiro que o aposentado guardava em casa. Segundo relato de um parente da vítima à polícia, a quantia sumiu logo após sua morte. A suspeita é de que Michelle e a serial killer Ana Paula tenham se apropriado do valor, somando-o ao “pagamento” pelo crime. A apropriação de bens das vítimas, como visto nos casos anteriores, é uma constante no modus operandi de Ana Paula.
A exumação
A morte de Neil, inicialmente registrada como natural, só voltou a ser investigada meses depois, quando a polícia de São Paulo começou a desvendar a rede de homicídios atribuídos a Ana Paula. Em 9 de outubro de 2025, o corpo de Neil foi exumado e encaminhado ao Instituto Médico-Legal do Centro do Rio de Janeiro para análise toxicológica. O exame, que deve levar cerca de 30 dias, tem como objetivo confirmar se o aposentado foi envenenado durante a refeição.
A expectativa é de que a perícia encontre vestígios de chumbinho — o veneno de escolha de Ana Paula — no organismo de Neil, confirmando definitivamente que sua morte não foi acidental.

O assassinato de Neil se destaca dos outros crimes atribuídos a Ana Paula por várias razões. É o único cometido no estado do Rio de Janeiro, enquanto os outros três ocorreram em São Paulo. É o único em que Ana Paula não tinha relação pessoal prévia com a vítima — ela foi contratada por Michelle, que conhecia Neil intimamente. É o único crime claramente “por encomenda”, com pagamento estabelecido previamente.
Mas, acima de tudo, é o crime que revela a evolução da mente de Ana Paula. Ela não matava mais apenas por ganho imediato, por vingança ou por necessidade de controle. Ela havia transformado o assassinato em um serviço, uma habilidade que podia ser vendida. A frieza necessária para cobrar um preço pela vida humana, para negociar valores, para descontar dívidas do pagamento de um homicídio — tudo isso aponta para um nível de psicopatia que vai além do oportunismo. Aponta para uma predadora que havia encontrado sua vocação.
E o mais assustador: as comunicações interceptadas sugerem que Neil não seria o último “TCC”. Roberta orientava Ana Paula a “cobrar” por futuros trabalhos, estabelecia valores mínimos, discutia estratégias. As irmãs estavam, efetivamente, montando um negócio de assassinatos por encomenda.
As prisões
Michelle Paiva da Silva foi presa na última terça-feira de setembro de 2025, em uma universidade no Engenho Novo, Zona Norte do Rio, onde cursava Direito. A prisão foi resultado da cooperação entre as polícias de São Paulo e do Rio de Janeiro, que montaram um quebra-cabeça complexo conectando as mortes aparentemente isoladas.

Ana Paula teve sua prisão preventiva decretada em 9 de julho de 2025, após confessar o assassinato de Marcelo Hari Fonseca e ser vinculada às outras mortes. Roberta teve prisão temporária decretada em agosto de 2025, quando as comunicações entre as irmãs foram analisadas e seu papel como mentora dos crimes ficou evidente.
O bolo envenenado: como Ana Paula foi descoberta
Foi a tentativa de cometer o crime perfeito que, ironicamente, selou o destino de Ana Paula e expôs toda a sua rede de mentiras. Após o término de um relacionamento casual com o policial militar Diego Sakaguchi Ferreira, ela arquitetou um plano elaborado para incriminá-lo, bem como a sua esposa, Cristiane Sakaguchi Ferreira.
Ana Paula conheceu Diego em março de 2025 através do aplicativo Tinder. Eles tiveram alguns encontros casuais, mas Diego deixou claro desde o início que era casado e não pretendia manter um relacionamento duradouro. Em 5 de abril de 2025, ele comunicou formalmente que não pretendia continuar o envolvimento. Em 9 de abril, interrompeu totalmente as respostas às mensagens de Ana Paula. Em 10 de abril — o mesmo dia em que Maria Aparecida foi morta — Ana Paula tentou retomar contato usando o nome falso “Carol”. Diego bloqueou definitivamente o número em 12 de abril de 2025, às 20h43.
A rejeição foi o gatilho para uma vingança meticulosamente planejada pela serial killer.
A farsa que expôs a suspeita de ser serial killer
No dia 16 de abril de 2025, por volta das 12h11, policiais militares foram acionados para atendimento de uma ocorrência de “verificação de atitude suspeita” nas dependências da Universidade de Guarulhos, localizada na Rua Engenheiro Prestes Maia, nº 88, centro de Guarulhos. Ana Paula relatou aos policiais que, ao chegar à universidade naquela manhã, deparou-se com um bolo disposto na sala da turma 4D do curso de Direito, acompanhado de um bilhete contendo mensagem de estima supostamente assinada por Cristiane Sakaguchi Ferreira.
Ana Paula manifestou temor de que o alimento estivesse envenenado, tendo em vista “desavenças pretéritas” envolvendo a referida mulher. Ela alegou ter mantido um relacionamento amoroso com Diego, desconhecendo à época que ele era casado com Cristiane. Segundo sua versão, após descobrir e comunicar à esposa sobre o relacionamento extraconjugal, passou a ser alvo de ameaças reiteradas por parte de Cristiane, enviadas por meio de aplicativo de mensagens.
A situação ganhou contornos ainda mais dramáticos quando uma colega de Ana Paula, Gislene Aparecida Canto Kuba, relatou ter recebido ameaças do número (11) XXXXX-XXXX no dia 13 de abril de 2025. As mensagens continham ameaças de morte por envenenamento com “chumbinho”, fazendo menção a uma mulher que teria sido morta por ter se envolvido com o marido de outra pessoa. O número se identificava como pertencente a Cristiane Sakaguchi Ferreira.
Gislene, ao saber da investigação, apresentou-se espontaneamente à polícia e foi enfática ao afirmar que o vínculo com Ana Paula era superficial, restrito a eventuais conversas pontuais sobre a rotina acadêmica, iniciadas somente após o dia 8 de abril do corrente ano. Salientou, inclusive, que até então mal conhecia a colega de curso. Gislene declarou nunca ter estabelecido contato com Diego ou Cristiane Sakaguchi Ferreira, afirmando não os conhecer, seja pessoalmente, seja virtualmente.
Laudo Pericial: bolo não tinha veneno
O bolo e o bilhete foram apreendidos sob lacres nº 00007134 (bolo) e 00007132 (bilhete) e encaminhados ao NAI (Núcleo de Análise Instrumental) do Instituto de Criminalística da Superintendência da Polícia Técnico-Científica do Estado de São Paulo para verificação da presença de substâncias tóxicas.
O Laudo Pericial nº 142.839/2025, emitido em 20 de maio de 2025 pelo perito criminal Adriano Mari Pasquotto, foi categórico: não foram identificadas quaisquer substâncias tóxicas, entorpecentes, medicamentosas ou praguicidas (agrotóxicos) no conteúdo examinado, mesmo após submissão aos exames de Cromatografia Gasosa Acoplada à Espectrometria de Massas (GC-MS) e Cromatografia Líquida de Alta Eficiência (HPLC-DAD).
O bolo não tinha veneno. Não houve risco real de envenenamento. Toda a narrativa de Ana Paula era uma farsa.
Análise de telefonia: como a polícia descobriu as ameaças
A análise de telefonia foi implacável. O número (11) XXXXX-XXXX, que enviou as ameaças tanto para Ana Paula quanto para Gislene, estava cadastrado em nome de Maria Aparecida Rodrigues — a namorada morta de Ana Paula. Mais do que isso: o chip operava nos mesmos aparelhos celulares (IMEIs 3516833353561XX e 3516833353561YY) utilizados por Ana Paula em seu número pessoal (11) XXXXX-YYYY.
O cadastro do chip ocorreu às 14h do dia 10 de abril de 2025, poucas horas antes da morte de Maria Aparecida. Ana Paula havia usado os documentos da namorada para registrar o chip e, nos dias seguintes, utilizou esse número para enviar ameaças em nome de Cristiane, criando uma falsa narrativa de perseguição.
Cristiane Sakaguchi: a esposa falsamente acusada pela serial killer
Cristiane Sakaguchi Ferreira foi ouvida pela Polícia Civil em 9 de maio de 2025, acompanhada de sua advogada. Ela confirmou ser casada com Diego desde 25 de abril de 2015, com quem possui dois filhos menores. Questionada sobre os fatos sob investigação, negou veementemente qualquer envolvimento com o envio do bolo ou com o conteúdo das mensagens ameaçadoras.
Cristiane relatou que, no dia 12 de abril de 2025, às 12h33, recebeu uma mensagem via WhatsApp proveniente do número (11) XXXXX-XXXX, cuja identificação de perfil na plataforma era de uma mulher denominada “Camila”, solicitando informações a respeito da encomenda de um bolo. Cristiane trabalha como técnica de enfermagem e faz bolos como atividade complementar. Causou-lhe estranheza o fato de a interlocutora ter mencionado que o contato foi repassado por “seu marido”, indicando Diego, e que a solicitante residia em Mogi das Cruzes (Grande São Paulo).
Na mesma data, às 14h09, Cristiane foi contatada por Ana Paula através do número (11) XXXXX-XXXX. Ana Paula afirmou estar em relacionamento com Diego e questionou se ele era casado. A conversa rapidamente degenerou em insultos e agressões verbais. Ana Paula afirmou que Cristiane e Diego “vivem um relacionamento a três” e mencionou uma mulher morta, insinuando que ambos teriam de prestar esclarecimentos na delegacia.
Cristiane também relatou que sua filha de 10 anos recebeu um convite no Instagram de um perfil chamado “Casado_procurando” com uma foto de Diego, um ato de crueldade que visava atingir até mesmo uma criança inocente.
Cristiane negou conhecer ou ter tido qualquer contato com Maria Aparecida Rodrigues ou Gislene Aparecida Canto Kuba. Quanto ao bolo encontrado na universidade, ela demonstrou que, na data dos fatos, encontrava-se em sua residência na cidade de Mirandópolis (interior de SP), distante aproximadamente 600 km de Guarulhos, tendo inclusive mantido contato com prestador de serviço e enviado imagens da parede de sua casa naquele dia, comprovando seu álibi.
A farsa de Ana Paula, chamada pelas autoriades de Serial Killer de Guarulhos, estava completamente desfeita.

O que diz a defesa da suspeita de ser a Serial Killer de Guarulhos
O advogado Almir da Silva Sobral, criminalista estabelecido em Guarulhos, assumiu a defesa de Ana Paula Veloso Fernandes. Sua estratégia não foi negar os fatos, mas questionar a materialidade dos crimes e atacar a legalidade da prisão.
A linha argumentativa é clara: sem laudos conclusivos, sem provas diretas de envenenamento, sem testemunhas presenciais dos atos homicidas, não há crime. Apenas suspeitas. E suspeitas, por mais fortes que sejam, não sustentam uma condenação.
O primeiro pilar da defesa é a postura de Ana Paula durante a investigação. Segundo Sobral, sua cliente colaborou integralmente com todas as etapas do processo. Não fugiu. Não resistiu. Não obstruiu. Compareceu quando chamada. Respondeu quando questionada.
Mais do que isso: foi ela quem chamou a polícia ao encontrar o corpo de Marcelo Hari Fonseca. Foi ela quem comunicou a morte de Hayder Mhazres. Foi ela quem esteve presente, solícita, disponível.
A defesa transforma isso em argumento: se Ana Paula fosse uma assassina calculista, por que se colocaria voluntariamente no centro das investigações? Por que não simplesmente desaparecer?
A defesa atacou duramente a prisão temporária de Ana Paula, classificando-a como “constrangimento ilegal” e “excesso de prazo injustificável”.
Segundo Sobral, a prorrogação da custódia serviu apenas para suprir a “falta de planejamento” da investigação, transferindo à ré o ônus do tempo processual e violando o princípio constitucional da presunção de inocência.
O argumento é técnico: a prisão temporária, por definição, é excepcional e limitada no tempo. Sua função é garantir a investigação, não punir antecipadamente. Se a polícia não conseguiu concluir o inquérito no prazo legal, o problema é da polícia, não da investigada.
A defesa propôs alternativas: tornozeleira eletrônica, proibição de contato com testemunhas, recolhimento noturno. Medidas cautelares que, segundo o advogado, seriam “plenamente suficientes” para garantir a ordem processual.
A Justiça discordou. E manteve Ana Paula presa.
Marcelo Hari Fonseca: laudo inconclusivo
O corpo de Marcelo foi encontrado em avançado estado de decomposição. O laudo necroscópico não conseguiu determinar a causa da morte. Não há análise toxicológica. Não há vestígios de veneno. Não há prova material de homicídio.
A defesa questiona: como acusar Ana Paula de matar Marcelo se nem sequer se sabe se Marcelo foi assassinado? Ele poderia ter morrido de causas naturais. Poderia ter tido um infarto. Poderia ter sofrido um acidente doméstico.
A ocupação irregular do imóvel? Crime civil, não homicídio. A queima de pertences? Conduta reprovável, mas não assassinato. A relação entre Ana Paula e Marcelo? Circunstancial, não probatória.
Maria Aparecida Rodrigues: morte natural
O registro inicial da morte de Maria Aparecida classificou o óbito como “morte natural”. Não houve perícia toxicológica imediata. O corpo foi liberado para sepultamento. A investigação só começou meses depois, quando o padrão de mortes ao redor de Ana Paula se tornou evidente.
A defesa explora essa lacuna: se a própria polícia, na cena do crime, não viu sinais de homicídio, como pode agora, meses depois, afirmar categoricamente que houve envenenamento?
Sim, há testemunhos de que Ana Paula ofereceu café e bolo a Maria Aparecida. Sim, Maria passou mal logo depois. Sim, morreu em circunstâncias suspeitas. Mas testemunhos não são laudos. Suspeitas não são certezas.
Neil Corrêa da Silva e Hayder Mhazres: conexão frágil
Nos casos de Neil e Hayder, a defesa sustenta que não há “conexão lógica e contemporânea” entre as condutas de Ana Paula e o resultado morte.
Neil foi envenenado por feijoada preparada por Ana Paula? Segundo a defesa, não há prova de que Ana Paula cozinhou a feijoada. Não há prova de que ela adicionou veneno. Não há prova de que ela estava presente quando Neil comeu.
Hayder morreu após contato com Ana Paula? Sim. Mas morreu de envenenamento? O corpo foi repatriado à Tunísia sem análise toxicológica completa no Brasil. Não há laudo definitivo. Não há certeza científica.
A defesa repete, incansavelmente: dúvidas razoáveis devem beneficiar o réu.
Histórico pessoal não é prova de crime
Ana Paula tem um histórico conturbado. Conflitos familiares. Boletins de ocorrência. Acusações de estelionato. Processos cíveis. Relações tóxicas. Mentiras compulsivas.
A defesa argumenta que nada disso prova que ela é uma assassina.
Ter problemas interpessoais não é crime. Mentir não é homicídio. Apropriar-se indevidamente de bens pode ser estelionato, mas não transforma alguém em serial killer.
Segundo Sobral, a acusação está construindo um “perfil criminoso” baseado em preconceitos e generalizações, não em provas concretas de cada crime específico.
É um argumento juridicamente correto: cada acusação deve ser provada individualmente. O histórico pode ser usado como contexto, mas não substitui a prova material.
O direito ao contraditório e à ampla defesa
A defesa reforça, repetidamente, que Ana Paula tem direito a todas as garantias processuais: presunção de inocência, contraditório, ampla defesa, proporcionalidade das medidas cautelares.
Segundo o advogado, Ana Paula “jamais se furtou ao processo”. Ela está presente. Ela está respondendo. Ela está exercendo seu direito de defesa.
E, crucialmente, litígios civis sobre posse de bens, patrimônio ou heranças “não guardam relação automática ou necessária com homicídios”.
É uma separação clara: uma coisa é discutir quem tem direito ao apartamento de Marcelo. Outra, completamente diferente, é provar que Ana Paula o matou para ficar com o apartamento.
O pedido de liberdade
O objetivo final da defesa é claro: revogar a prisão temporária e obter a liberdade de Ana Paula.
O argumento constitucional é forte: a liberdade é a regra, a prisão é a exceção. Só se justifica a prisão cautelar quando há risco concreto e atual à ordem pública, à instrução criminal ou à aplicação da lei penal.
A defesa sustenta que nenhum desses requisitos está presente. Ana Paula não fugirá — tem residência fixa e família. Não obstruirá a investigação — já colaborou integralmente. Não representa perigo à sociedade — não há indícios de que planeje novos crimes.
Subsidiariamente, se a Justiça entender que alguma medida cautelar é necessária, que seja tornozeleira eletrônica, não prisão.
O trecho mais revelador
Em uma das petições, Almir da Silva Sobral escreveu:
“A prorrogação da custódia cautelar se traduz em excesso de prazo injustificável, ferindo o princípio da dignidade da pessoa humana e o direito constitucional à liberdade. Não se demonstrou, de forma concreta e fundamentada, que a permanência da ré na prisão seria absolutamente indispensável para a conclusão do inquérito…”
É um argumento técnico, frio, processual. Mas revela a estratégia central: atacar não os fatos, mas a forma. Não negar as suspeitas, mas questionar as provas. Não defender a inocência, mas exigir a presunção dela.
A Justiça decidiu
A defesa perdeu.
A prisão temporária foi convertida em prisão preventiva. Ana Paula permanece detida. O Judiciário entendeu que há indícios suficientes de autoria, que há risco à ordem pública, que há necessidade de garantir a instrução criminal.
Mas a batalha judicial está apenas começando. E a defesa de Ana Paula continuará fazendo o que todo advogado criminalista deve fazer: questionar cada prova, explorar cada dúvida, exigir cada garantia constitucional.
Porque, no final, o sistema de justiça não funciona apenas para condenar culpados. Funciona, sobretudo, para proteger inocentes de condenações injustas.
E cabe à acusação provar, além de qualquer dúvida razoável, que Ana Paula é, de fato, a Serial Killer de Guarulhos.
Análise: a defesa tem razão?
Do ponto de vista estritamente jurídico, os argumentos da defesa são sólidos. Laudos inconclusivos são, de fato, um problema para a acusação. A ausência de análises toxicológicas completas enfraquece a tese de envenenamento. A falta de testemunhas presenciais dos atos homicidas cria espaço para dúvida razoável.
Mas o Direito Penal não opera apenas com certezas científicas absolutas. Opera também com indícios, com contexto, com padrões de comportamento.
E o padrão aqui é inegável: quatro pessoas morreram em circunstâncias suspeitas após contato próximo com Ana Paula. Em todos os casos, ela estava presente. Em todos os casos, ela foi a primeira a comunicar a morte. Em todos os casos, ela se beneficiou — material ou emocionalmente — do falecimento.
Pode ser coincidência? Tecnicamente, sim. Provavelmente? Não.
A defesa está fazendo seu trabalho: exigir que o Estado prove, com rigor, cada elemento do crime. É o que garante que o sistema não se transforme em instrumento de arbítrio.
Mas a sociedade, olhando para o conjunto dos fatos, para a cronologia, para o modus operandi, para a frieza com que Ana Paula ocupou a casa de Marcelo, queimou os pertences de Maria Aparecida, usou a identidade das vítimas, já formou seu veredicto.
O júri popular, quando chegar a hora, terá a palavra final.




